5 de janeiro de 2015

Contos:


Prezada leitora e caro leitor, é com satisfação que lhes apresento outro Conto da minha autoria.
Vamos a ele:


  


Adalberto, um desses tipos comuns que não tem muito que fazer na vida, – um folgado como tantos outros; solteiro, com seus quarenta e nove, cinquenta por aí, aposentado precocemente, que exatamente por não ter o que fazer, buscava, pelo menos, se entreter e ocupar seu tempo com coisas que pudessem lhe atrair, – tudo sem significância, sem importância e sem sentido; nada que fosse útil, nem pra ele, muito menos para os outros. 
Sua predileção, para não dizer vício, era passar horas e horas frente a um computador viajando pela Internet afora. Não que fosse um alienado, mas era como fosse; abria alguns sites de notícias, em outros tantos ele pesquisava coisa e outra, aqui e ali, fosse o que o fosse, coisas que lhe despertavam a atenção simplesmente por despertar, não que tivessem um propósito, uma finalidade específica, nada disso...
E assim, todo Santo-dia a coisa se repetia: ele levantava, fazia o que tinha de fazer e lhe era devido e necessário, porém não mais do que isso; depois, logo em seguida, invariavelmente, com chinelo nos pés, de bermudão, camiseta folgada – quando muito um agasalho nos dias frios, aliás, diga-se de passagem, em dias frios nem o pijama ele tirava – lá ia ele ligar o computador.
Isso tudo era, talvez também – coitado – por ser sozinho, um zé-ninguém, sem parente ou qualquer pessoa com quem pudesse conviver e lhe fazer companhia – era um solitário que vivia dependente dele mesmo.
Exatamente por ter tempo, Adalberto fuçava a Internet como poucos e para isso, é claro, o computador era pra ele peça fundamental, pois sem computador nada seria possível.
No entanto, apesar disso, relaxado como era, não tomava os devidos cuidados no seu uso – não fazia os procedimentos como deviam ser, o que sempre lhe trazia aborrecimentos...
Bem, mas enfim..., aborrecimentos que por piores que fossem ele acabava tendo sempre uma válvula de escape que era, seguramente, com a única pessoa que ele tinha algum contato mais íntimo: o técnico em informática que lhe prestava assistência e resolvia os seus problemas...
Entretanto, esse técnico era quem pagava pelas besteiras que ele fazia, não em espécie, mas em cobrança e intenções. Era muito comum quando o computador apresentava algum problema ele esbravejar consigo e xingar culpando o técnico em pensamento e muitas vezes falando consigo:
Aquele desgraçado me prometeu... E olha aí!... Outra vez esta droga está desligando... Aquele porra só sabe cobrar?... Vou ligar pra ele já!
Decidido, muito bravo, ele pegava o telefone e ligava para o técnico. Quando a pessoa atendia, ele já ia soltando os cachorros:
Ô meu!... Tá achado que tenho cara de trouxa é?
A pessoa assustada com os gritos dele, sempre perguntava a mesma coisa:
O quê?... O que foi que fiz dessa vez?
Você disse que arrumou e essa porcaria está novamente dando problema...
Qual problema?
Você é um cara de pau mesmo... Tá desligando, seu porra!
Esse tipo de conversa ele manteve com o técnico até o dia em que se convenceu em fazer e seguir as suas orientações e instruções.
Para quem vive usando a Internet é fundamental usar sempre recursos de limpeza quer seja do navegador quer seja do próprio sistema, mesmo que tenha um programa de antivírus instalado; pois os muitos vírus oriundos das viagens pela Internet não são, de início, detectados pelo antivírus, então é preciso fazer periodicamente uma varredura no sistema – um escaneamento.
A partir do momento que ele passou a fazer isso regularmente, os seus problemas foram extintos. Adalberto voltou a navegar pela blogosfera sem ter mais problemas.
E ele por não ter mais problemas, já muito mais confiante, passou a fuçar de tudo, desde sites especializados em pornografia, bate-papo, encontro e namoro entre pessoas, sites de turismo, sites de culinária – já que ele, por ser sozinho, cozinhava, todavia, o que ele mais passou a visitar foram sites especializados em literatura ou relacionados ao gênero literário.
Talvez por ter-se cansado e enjoado de ver tanta bobagem que não lhe agregava absolutamente nada, Adalberto adquiriu gosto pela leitura.
Com isso, ele visitava inúmeros sites; de uns ele gostava de outros não, e assim ia; nesse busca aqui busca ali, ele já era seguidor assíduo de diversos, dentre os quais muitos eram de autores: Contistas, Poetas e Poetisas que comumente divulgavam suas criações em seus sites e blogs.    
Um belo dia, lendo as postagens de um as postagens de outro, acabou descobrindo, através de um desses, o site de uma Poetisa; ao entrar no site e ler as suas poesias e poemas, Adalberto se entusiasmou; gostou tanto que acabou, no mesmo dia, além de salvar o link entre os seus favoritos, de ler quase todas as publicações da autora e assim foi até mais ou menos pela hora do almoço – quando lhe deu fome, só aí então ele resolveu parar e desligou o computador.
Todavia, o computador não ficou desligado por muito tempo, ficou pelo tempo suficiente pra ele preparar alguma coisa pra comer e logo depois, depois de saciado, ele voltou a ligá-lo.
Ao ligar, de início ele colocou em site de músicas online pra ouvir música enquanto navegava, – algo a mais para se distrair, depois foi ver as notícias.
Leu uma notícia aqui leu outra ali tentando se pôr a par e saber das “coisas”, mas tudo era, pra ele, pura bobagem, só asneira, então ele resolveu voltar ao blog da Poetisa.
E lá foi ele...
Depois de horas de ler aqui e ali as postagens, ele comentou consigo:
Puxa!... Como essa mulher escreve bem?... Caramba!... Que criatividade e que inspiração tem essa mulher?... Meu Deus!...
Pensou falando consigo e continuou “fuçando” o site da mulher; nisso, ao ler uma postagem antiga, ele se arrepiou com uma poesia – foi sensibilizado e ficou impressionado com o que leu... E não aconteceu outra coisa: de imediato, apesar do acanhamento, ele quis postar um comentário sobre a poesia – emitir a sua opinião.
Todavia, quando foi fazê-lo lhe deu dúvida no nome da Poetisa, então foi buscar esclarecer no perfil da autora. Ao fazê-lo, Adalberto já tinha visto é lógico, porém lhe passou despercebido, – não reparou direto, e ao tentar saber o nome dela bateu outra vez os olhos na foto da mulher, e aí ele se embasbacou.
Nossa Mãe!... Que mulher bonita?...
Falou com ele e ficou por longo tempo olhando a foto – nem piscava. Daí a pouco, ele voltou:
Mamma mia... Como pode ser tão bonita assim?...
Olhou, olhou, e daí voltou em dúvida.
Mas, será que é isso mesmo?... Será que essa foto não é de quando era nova?... falou e já concluiu:
É!... Vai ver é isso! Deve ser a foto de quando era nova, vai vê é uma velha que dá até medo e eu fico aqui admirando... Sou um trouxa mesmo! Vou parar com essa bobeira...
Decidido, desligou o computador e foi deitar-se – descansar e acabou, mesmo sem querer, dormindo até o dia seguinte...
Logo ao alvorecer, ele acordou admirado por ter adormecido de roupa e tudo...
Levantou e, chateado consigo mesmo, foi se lavar e tomar o café da manhã. Em seguida, como não podia deixar de ser, ligou o computador.
O engraçado foi que ele não sentiu nem vontade de ver as notícias como habitualmente fazia logo que ligava, foi direto ao site da Poetisa. Só depois de tê-lo feito, foi que se perguntou:
O que foi?... Estou apaixonado é?...
Falou e começou rir. Não demorou, voltou:
— Apaixonado eu não sei, mas louco, com certeza, eu estou, e se não vou ficar logo, logo... Mas também, veja você que mulher? Dá pra qualquer um ficar apaixonado só em ver, imagine então... – disse isso e parou de dizer agora realmente imaginando:
“Deve ser uma mulher, além de linda, culta, criativa e inspirada como vejo, muito gentil e simpática. E ademais, dá pra ver nos olhos e nesse leve sorriso na expressão, que ela deve ser meiga e carinhosa...”
Pensou e voltou a falar com ele:
Mas vem cá!... Será que não é casada não?...
Perguntou-se e respondeu:
É!... É possível que sim! Uma mulher bonita e inteligente como essa não deve ser solteira.
Coincidentemente, naquele dia ele tinha que ir ao banco resolver algumas pendências, então desligou o computador, mudou a roupa e pra lá foi...
Ao chegar ao banco e ficar na fila do caixa aguardando a sua vez, ele passou a observar os muitos...
Nesse olha um olha outro, principalmente as simpáticas moças atarefadas atendendo nos caixas, lembranças lhe vinham em mente... Com as lembranças, de repente, sentiu algo estranho ao lembra-se da Poetisa; era como se fosse acalentado com a lembrança do rosto da mulher, sensação prazerosa e gratificante, dando comichão e já não vendo à hora de voltar... 
Naquele dia, assim como nos dias seguintes, Adalberto não fez outra coisa senão ir ao site da Poetisa e lá se deslumbrar, agora não mais com as poesias, mas com o devaneio e as fantasias que lhe vinham ao apreciar a foto da mulher.
Isso foi até o dia em que ele, num momento de lucidez, concluiu falando pra si:
Mas você é um idiota mesmo! E daí se ela é casada ou não é casada. Quem garante que ela vá gostar e querer você, seu imbecil?
Assim, ele acabou se dando por conformado e resignado de que tudo não passou de uma grande ilusão...
 * * *

Espero que este Conto lhes tenha sido do agrado; abraço a todos e até a próxima!
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29 comentários:

Gracita disse...

Olá Viviani
Não consegui desgrudar os olhos da tela pois este conto me fez devanear imaginando o final. Quem sabe o Adalberto ainda possa ter uma bela surpresa. A vida é uma incógnita assim como a continuidade deste belíssimo conto. Parabéns pelo magnífico texto
Um abraço

Bell disse...

Segura um solteirão nos dias de hj kkkk

Célia Rangel disse...

... e como tem "Adalbertos" soltos pela telinhas da internet... E, nem sempre o final é feliz! Ilusões e iludidos se deixam contaminar! Um belo conto, diria até "um aviso aos navegantes"!
Abraço.

Filha do Rei disse...

Escreves com maestria!! Parabéns!!

Arione Torres disse...

Oi querido amigo, vim lhe desejar uma ótima semana, abraços!!

Samuel Balbinot disse...

Boa tarde meu amigo..
não é a toa que uma obra minha onde falo muitas coisas sobre os tempos de hj se chama Véus da ilusão..
como bem colocaste..
tudo aqui é uma ilusão.. muitas pessoas acham que a realidade é isso que vemos todo santo dia.. tem muitas realidades edificantes.. abraços e até sempre

Cidália Ferreira disse...

Gostei da leitura

Semana feliz
Beijos

http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

Laura Santos disse...

Ah que conto tão belo e actual, Viviani!
Quantos Adalbertos não existirão...?
De facto, uma pessoa só, e muito isolada do ponto de vista social poderá ter tendência a encontrar na internet, primeiro uma distracção, depois pode até por mero acaso e como necessidade de ilusão "apaixonar-se" por uma imagem, até por palavras. Tudo uma ilusão, porque nunca se sabe quem verdadeiramente está por trás dessas palavras, ou até de uma fotografia.
Enfim, sinais dos tempos!
Gostei muito. Os seus contos prendem verdadeiramente o leitor.
Boa semana!
xx

Zilani Célia disse...

OI VIVIANI!
TECESTE UM CONTO ATUAL E REAL POIS ACHO QUE MUITOS ADALBERTOS EXISTEM.
GOSTEI MUITO E O LI DE UM FÔLEGO SÓ.
PARABÉNS AMIGO.
ABRÇS

http://zilanicelia.blogspot.com.br/

JAIRCLOPES disse...

Cono de altíssima qualidade.

Guaraciaba Perides disse...

Interessante,,,o que o prendeu foi a alma e a poesia, em princípio...depois foi a matéria, o rosto , o sorriso, a beleza, atributos muito humanos e reais, a força do humano fugindo ao controle da poesia trazendo-o de volta ao mundo real. Acontece!
um abraço

Pedro Luis López Pérez (PL.LP) disse...

Un Relato muy bonito sobre alguien que sobrevive solo y con la única compañera que es su computadora.
Una Vida monótona y sin ningún aliciente; nada más que una fría pantalla y observar las mismas cosas todos los días, hasta que algo nuevo cambio ese perfil de Vida sedentaria y aburrida.
En cualquier caso; no debería darse por vencido y debería luchar por que esa Ilusión se convirtiera en una dulce Realidad.
Espero y deseo que los Reyes te concedan todos los deseos que has pedido, en especial Salud y Amor.
Abrazos.

Amatista Amatista disse...

Me ha encantado tu historia ,yo he visto una película que la persona vive solo con la voz de su ordenador,siempre es un gusto leerte,saludos

A Palavra Mágica disse...

Lindo conto Viviani. O Adalberto é uma prova cabal de que na internet se encontra de tudo. Parabéns!

Abraço!
Alcides

Mariangela disse...

Vim desejar-lhe um lindo dia!
Muito bom seu conto . E muito real... E as pessoas que tratem de ficarem mais espertas!
Abraços JR!
Mariangela







Vitor Chuva disse...

Olá, Viviani!

Certamente história em que outros se poderão rever; condão da Internet, que permite todas as fantsias de acordo com a imaginção e sonhos de cada um...até a verdade ser encontrada.

Bem escrito; gostei de ler.

Um abraço
Vitor

Nelma Ladeira disse...

Adotei seu conto, o Adalberto!
Ele é muito engraçado! Coitado do técnico!
Tudo muito lindo!
Adorei meu amigo J.R. Viviane.
Beijinhos.

Existe Sempre Um Lugar disse...

Boa tarde, existe muitos Adalbertos, que são tão imperfeitos como todos que não são Adalbertos, uma pergunta fica sempre no ar, quem é que está no caminho certo, é o Adalberto ou o não Adalberto? tudo é relativo. Gostei de ler a sua criatividade.
AG

Daniel Costa disse...

Caro Viviani

Para mim, o conto tem tudo de interessante a prender o leitor. Tem muito de novidade, como seja, o que diz respeito às novas tecnologias de informação. Perfeito!
Abraços

Evanir disse...

Ao completar 10 anos de blog
não poderia deixar de agradecer pelo seu carinho amizade,
e companheirismo.
Uma década se passou quantas coisas aconteceram,
quantos momentos vividos de pura emoção.
O meu muito obrigada por fazer
parte dessa década vivida...
Seu carinho é muito importante
que eu possa dar continuidade
para seguir sempre em frente...
um feliz e abençoado final de semana.
Evanir.

Bia Hain disse...

Ótimo texto para iniciar o ano! Um abraço, feliz 2015!

Pérola disse...

Bem pode ser uma história da atualidade, bem real. Ou então mais uma ilusão.

Quem sabe?

Só o autor o saberá.

Venha mais...

beijo

Cesar S. Farias disse...

Passando pra lhe desejar um ótimo ano, com bastante inspiração positiva pra todos nós, artífices da escrita.

Elyane Lacerdda disse...

A vida é regada de surpresas, vamos aguardar,amigo!
Bjus e lindo texto!
http://www.elianedelacerda.com

Lilly Silva disse...

Ótimo conto. Maravilhoso post!
Tenhas um fim de semana abençoado!
Abraços

http://simplesmentelilly.blogspot.com.br/

Arione Torres disse...

Oi amigo, lindo conto!!!
Tenha uma ótima semana, abraços e fique com Deus!!

Andreia Morais disse...

Quantos como ele não existirão por aí...
Gostei muito!

r: Muito, muito obrigada pelas palavras. Seja sempre bem-vindo ao meu blog.
Quanto à música, o mérito é todo dos artistas que as cantam :)

Beijinho*

AvoGI disse...

Adorei. Genial .
Kis :>}

Catarina disse...

Ah! Muito para ler por aqui. Que bom!
: )