20 de dezembro de 2014

Divulgando:

EPÍLOGO DO:



No Domingo, depois da missa, falaram com o padre para marcar o casamento. Naquela época, no Barreiro, era o Padre Abílio que estava na Igreja de Sta. Cruz onde eles acabaram por casar.
Este, depois de ter ouvido a confissão dos dois, fez questão de tratar de tudo rapidamente e sem qualquer custo. Casaram três semanas depois, o tempo necessário para os proclamas na terra dos noivos.
João tinha alugado uma casita num pátio perto da entrada da Seca. Era pequena, apenas um quarto e uma cozinha, uma pequena arrecadação e um galinheiro nas traseiras. Não tinha luz elétrica, nem água canalizada. Mas, no centro do pátio, havia um poço com uma espécie de tripé por cima, com uma roldana, onde passava uma corda que tinha numa das pontas um balde. Era desse modo que eles se abasteciam de água. Não tinha casa de banho. As necessidades faziam numa espécie de pote em argila, que era despejada todas as manhãs na “pipa”, A “pipa” era uma camioneta cisterna, propriedade da Câmara, que todas as manhãs percorria os pátios para recolher os detritos. Num canto do pátio, havia um pequeno cubículo onde se improvisara um duche comunitário, já que servia para todos os moradores do pátio, que era composto por oito casas. O duche era a ponta de um regador, presa num tubo que saia de um bidão que alguém instalara lá em cima. Estava sempre cheio de água. Cada vez que alguém tomava banho, quando acabava, ia ao poço buscar água para voltar a encher o bidão. De Verão, o bidão apanhava sol todo o dia e o banho era quente. De Inverno, era gelado, claro. Naquelas três semanas, até ao casamento, compraram uma cama, uma mesa e dois bancos. A madrinha de casamento, deu-lhes dois lençóis e o padrinho, uma máquina a petróleo para fazer a comida. A cunhada deu-lhe meia dúzia de pratos e dos futuros vizinhos recebeu um tacho, uma panela, uma sertã, um candeeiro a petróleo e uma manta de trapos.
 Rosa fora trabalhar para a Seca do Bacalhau e lá encontrou gente da sua aldeia e de certa maneira sentiu-se mais segura. Era gente que trabalhava muito, ganhava pouco e ainda tinha que poupar para a viagem de regresso à aldeia, quando a safra acabava, e também para os meses que ficavam lá na aldeia, sem saber onde arranjar dinheiro para comer. Mesmo assim, juntaram-se e compraram o vestido de noiva da Rosa. Era uma saia azul e um casaquinho da mesma cor e uma blusa branca. A cunhada deu-lhe os sapatos. Não eram novos, tinha sido a madrinha dela que lhos dera no casamento. Mas como estavam apertados só os usara nesse dia. Eram pretos, com um vivo largo branco a toda a volta.
Quando no dia do casamento, se viu ao espelho, Rosa achou-se uma rainha. E lá foi para a igreja, na carroça do ti’ Abel com o futuro marido, porque essa história do noivo não ver a noiva antes do casamento, não era para gente pobre. Pelo menos nessa época.
No ano seguinte, Rosa dava à luz uma menina e no outro, mais uma menina e no outro ainda, um rapaz.
Três filhos em três anos. João trabalhava agora na C.U.F., ganhava um pouco melhor mas, ainda assim, pouquíssimo para as necessidades de cinco bocas. A casa também não tinha condições. No quarto, além da cama de casal e do armário, só cabia o berço. As duas crianças mais velhinhas dormiam no chão da cozinha, numa cama feita com uma manta de trapos.
Quando vagou uma casa de dois quartos no pátio, mudaram-se para lá. Mas Rosa já estava outra vez grávida. Nessa altura não havia pílula, só as “camisinhas”. Mas João não as queria usar. Quando os amigos ou vizinhos comentavam da pobre Rosa que sofria de “prenhez crónica” ele dizia a rir:
E o que é que eu hei-de fazer? O raio da mulher basta olhar para mim quando estou a mudar de roupa para “embuchar” logo.
Rosa adorava o marido. Nunca lhe batera, o que os maridos das vizinhas faziam com frequência, nunca a ofendera e, às vezes, até era carinhoso com ela. Era bom pai, muito trabalhador, não se metia nos copos como alguns vizinhos. O pior era não querer usar a malfadada “camisinha”. Cada vez que ela lhe pedia, respondia sempre que "os rebuçados embrulhados não sabem a nada". E Rosa começava a estar cansada.
Felizmente para ela, o bebé não foi além do terceiro mês, tendo sofrido um aborto espontâneo. O pior foi que pelo Natal já estava outra vez grávida. Rosa tinha que aproveitar o trabalho na Seca do bacalhau para ajudar a despesa da casa. Levantava as crianças logo de manhãzinha e lá ia ela para o trabalho, com um filho no bucho, os dois mais pequenos sentados cada um do seu lado sobre a anca e a maiorzinha agarrada às saias. Na Seca, estendia o xaile dentro dum carro de mão e lá metia os bebés guardados pela pequenita enquanto ela trabalhava. Tempo depois, voltou a abortar e deu Graças a Deus por isso.
Depois, vieram mais três em quarenta meses. Rosa ainda não fizera 28 anos e já tivera seis filhos e dois abortos. As duas filhas mais velhas já estavam na escola. Rosa tinha vergonha de mandar as crianças, para a escola, com os sapatos rotos mas não podia comprar outros. De roupa, as duas mais velhas estavam servidas. Havia na Seca uma senhora, esposa do chefe de escritório, que tinha duas filhas, um pouco mais velhas que as suas e dava-lhes a roupa que já não servia às meninas. Coisas caras, de bons tecidos, que mesmo depois de deixarem de servir às filhas, ela guardava religiosamente para a mais pequenina. Para os rapazinhos é que era pior. Mas a necessidade aguça o engenho e Rosa ia aproveitando das suas roupas e do marido, que já não davam para consertar, alguns bocados bons que dava para uns calções ou um bibe para os miúdos. De quando em vez, Amélia, a cunhada, lá arranjava maneira de lhe dar um quilo de arroz, umas batatas ou meio litro de azeite. Não muito que também ela vivia com muitas dificuldades. O problema dos pobres é que o que podem partilhar é sempre muito menos do que manda o seu desejo de ajudar.
À noite, quando regressava do trabalho, Rosa recolhia do pessoal que vivia na Seca e cuja cozinha era composta por enormes fogões a lenha, o carvão que os ia aquecer na braseira.
Mas sentia-se muito cansada. Sentia-se velha. A vida estava cada dia mais difícil. O ordenado do marido não chegava para nada. O dono da mercearia fiava-lhe o avio durante a semana. Quando no Sábado o marido recebia a semanada, passava por lá para acertar contas e vinha logo sem dinheiro para casa.
De setembro a março, Rosa trabalhava na Seca do bacalhau. Trabalho duro e não muito certo pois, quando o Inverno era rigoroso e não se podia pôr o bacalhau na rua para secar, não havia trabalho. Às vezes, ficava-se uma semana inteira sem ganhar um tostão. Mas, ainda assim, vivia-se melhor que de Verão, pois sempre eram dois a ganhar. E depois era a oportunidade dela ver gente da sua aldeia e de outras vizinhas, de rir, cantar e esquecer um pouco a miséria que tinha em casa. Ali, naquele mundo maioritariamente feminino, não havia segredos. Todas sabiam quando alguma levava “porrada” do marido, quando não tinham que comer ou quando punham “um filho a estudar”. Pôr um filho a estudar, para aquelas mulheres, era fazer um aborto. Muitas faziam – nos elas próprias sem quaisquer condições. Por causa disso, não raras vezes, alguma morria com uma infeção. Algumas, trabalhavam na seca com os maridos, outras, os maridos trabalhavam nas fábricas de cortiça, ou na C.U.F. mas todas viviam irmanadas na mesma vida difícil e contudo aparentavam uma alegria difícil de explicar, pois passavam as horas de trabalho sempre cantando ou contando anedotas como se o trabalho fosse leve e a vida lhes sorrisse lá fora. Algumas faziam graça com a própria fome, como a Rosalina, que enfiava um dedo no meio do pão e comia à roda do dedo, dizendo que comia pão com chouriço, ou a Virgínia que dizia estar a almoçar um cozido à portuguesa, enquanto emborcava uma sopa deslavada.
Por esses dias, a Ti Urbana perguntou-lhe:
Ó Rosa, tu já estás prenha outra vez, mulher?
Não! - A resposta foi quase um grito. Pela sua saúde, não me diga isso que me desgraça.
Eu não te digo mas que estás é verdade. Basta olhar as tuas pernas. Ó mulher mas tu não tens juízo?
Ai Ti ‘Urbana, se for verdade, tenho que dar um jeito. Não quero ter mais filhos. O meu Alberto ainda não fez os sete meses.
Vai ao posto médico. Mas olha que eu nestas coisas nunca me engano.
Na Seca, havia um posto médico, com um enfermeiro, e às quintas-feiras ia lá um médico.
Nessa semana, Rosa foi ao médico que o confirmou. Mais uma vez estava grávida!
Pediu ajuda a algumas mulheres mais velhas. Nunca fizera um aborto mas, desta vez, tinha que ser. Estava decidida a não ter mais filhos. Mas não tinha dinheiro para ir à parteira. A Adélia ensinou-lhe a fazer escalda-pés com grãos de mostarda. Fez durante 3 dias mas não resultou. Depois foi fazendo tudo o que as outras lhe diziam já ter feito até terminar por picar o útero com um talo de aipo até sangrar. "Resulta sempre", tinham-lhe dito. E resultou. Numa grande hemorragia, seguida de infeção, que a levou à sala de cirurgia e nunca mais pôde engravidar.
Quando Rosa saiu do hospital, o padre que a tinha casado, arranjou-lhes um dos oito fogos, que ele próprio mandara construir para alguns dos seus paroquianos, que viviam em condições miseráveis. A casa ficava na vila, longe portanto da Seca, mas Rosa achou que lhes tinha saído a sorte grande. A casa, composta por uma boa cozinha, casa de banho e  três quartos, com chão de tacos, pareceu-lhes um palácio. A vida do casal começava a melhorar. A filha mais velha foi servir para Cascais e só vinha a casa uma vez por mês. A segunda também foi servir para casa dum Sr. Doutor, lá mesmo no Barreiro. Dos três mais velhos, ficava em casa o rapaz que era muito frágil e que tinha sempre “uma ninhada de gatos no peito”. Ali na vila, já havia algumas senhoras que lhe davam umas horas de trabalho para limpezas ou passar a ferro e a vida parecia então começar a equilibrar-se. Mas… foi nessa altura que João mudou. Andava macambúzio, perdera parte da sua alegria, olhava à volta com desconfiança e, de vez em quando, saía à noite. Às vezes, vinha cedo mas outras, só voltava de madrugada. Rosa começou a pensar que ele tinha arranjado uma amante.
Sentia que o chão lhe fugia debaixo dos pés e um dia fez-lhe a pergunta direta.
João irritou-se. Que ela estava doida, onde teria ido buscar essa ideia. Mas Rosa não ficou convencida. E uma noite, em que o marido voltou a sair, ela foi atrás dele. E viu quando ele se encontrou com mais dois e como andavam acautelando-se nas sombras. E viu quando um quarto homem chegou com uma pasta, da qual tirou uns papéis que distribuiu em silêncio. Escondida, viu como os homens espalhavam alguns papéis, protegendo-se sempre no escuro e sem trocarem uma palavra. Assustada, voltou para casa e meteu-se na cama. A tremer, esperou a chegada do marido. Ela já tinha visto alguns papéis daqueles no chão. Tentara até apanhar um mas a vizinha impediu-a. Disse-lhe que eram papéis contra o governo, que os comunistas espalharam, mas que se ela fosse apanhada com algum, seria considerada comunista e seria presa. Preso!? O João podia ser preso? A frase martelava-lhe a cabeça e dava-lhe suores frios.
Quando João chegou a casa, achou a mulher estranha.
O que tens, mulher? Aconteceu alguma coisa?
Ela respondeu com outra pergunta:
Tu és comunista, João?
Cala-te, disse perdendo a cor. Nem em pensamento, ouviste, nem em pensamento repitas isso.
Então é verdade, disse ela com a voz embargada pelas lágrimas. Mas porquê? Já passámos tanta fome, tanta miséria e agora que a nossa vida está bem melhor, é que queres desgraçar-nos.
Tu não compreendes mulher. É nosso dever tentar que os nossos filhos não passem o que nós passámos.
Mas… e se eles te prendem João?
  Não te preocupes, nós temos cuidado. É verdade que há muitos “bufos”, mas também há muita gente do nosso lado.
Mas, desde aquela noite, e durante vários anos, Rosa nunca mais teve um minuto de sossego.
Quando em 1969, a filha mais velha da Rosa se casou, ela já não sabia do marido há largos meses.
Mergulhado nos ideais comunistas, João fora-se embrenhando na política e tornando-se um membro muito ativo. A política é uma amante muito ciosa dos seus afetos e não tem contemplações com outros amores, especialmente em regimes fascistas e repressivos. Assim, aos poucos foi-se afastando cada vez mais da família. No começo, ele conseguia conjugar o seu trabalho, a vida familiar e as obrigações do partido sem levantar grandes suspeitas. Mas à medida que se foi tornando mais influente dentro do partido, isso tornou-se praticamente impossível. E quando, após uma denúncia, a maior parte dos seus camaradas foram surpreendidos e presos, João, que só não fora à reunião porque nesse dia entrara às 16 horas no trabalho e só saiu à meia-noite, pensou que a sua prisão estaria por horas. Em parte por causa da família, e em parte porque achava que seria mais útil ao partido cá fora do que preso, fugiu nessa mesma noite. Mais uma vez, Rosa ficava numa situação precária, com 3 crianças e um adolescente frágil e doente para cuidar e alimentar. Valeram-lhe as duas filhas mais velhas e algumas vizinhas. Estas ajudavam não só com alguma comida como também arranjando-lhe mais horas de trabalho, para ela ganhar algum dinheiro. De vez em quando, chegava uma carta com algum dinheiro. Não muito mas era uma ajuda. Embora as cartas não trouxessem remetente, Rosa sabia que eram do marido. A primeira carta chegou com carimbo de Beja, a segunda de Lisboa, a terceira de Faro. Cada uma de um sítio diferente. Ela não podia saber que a carta que recebia viajava sempre com algum camarada para uma terra distante e só lá era metida no correio. Mas este era um estratagema que eles usavam para despistar a PIDE. Agora, a filha mais velha ia casar. Rafael era um excelente rapaz, muito trabalhador. Filho único, de mãe viúva, conseguiu livrar-se da ida para o Ultramar, por ser dado como amparo de mãe.
Rosa sentia uma grande tristeza por não ser o marido a levar a filha ao altar e não tê-lo a seu lado naquele dia tão importante das suas vidas. Afinal, a noiva era a sua menina. Tinha medo que ele estivesse preso. Há vários meses que, não recebia nenhuma carta. Falava-se em sussurros que nas últimas semanas tinham sido efetuadas muitas prisões. De vez em quando, desaparecia um vizinho. No Barreiro, havia muitas mulheres como ela. Viúvas da política. Algumas eram viúvas de facto pois os seus maridos foram torturados até à morte. Outras eram viúvas de maridos vivos, pois que estes estavam presos e muitas vezes nem a família sabia onde, ou ainda, andavam fugidos por terras estranhas.
Naquela manhã do dia 25 de Abril de 74, Rosa olhava-se no espelho e não se reconhecia. Apesar de não ter ainda 50 anos, Rosa estava cada dia mais velha, a face enrugada, os cabelos embranquecidos, o corpo magro e alquebrado, resultado de ser toda a vida saco de pancada da vida. Pensava que já não tinha forças para se aguentar muito mais tempo. A sua família tinha-se desagregado.
Do marido, não sabia há muito, talvez estivesse preso, ou, quem sabe, tivesse morrido em qualquer prisão. As filhas casaram e embora não vivessem longe, estavam cada dia mais desligadas da casa materna, divididas entre o trabalho, o cuidarem da casa e dos filhos.
Dos dois rapazes mais novos, um conseguiu realizar o sonho de ser fuzileiro e encontrava-se num destacamento no Lungué-Bungo, no leste de Angola, enchendo de saudade e preocupação o seu coração de mãe. O outro, que era contra a guerra, fugira de salto para a França. Restava-lhe em casa um filho, cada dia mais doente, e uma filha adolescente.
Sacudiu a cabeça, como se quisesse abandonar todos os seus pesares, e dirigiu-se a casa do Sr. Doutor, onde ultimamente trabalhava a dias, sem sequer sonhar que no seu País estalara uma revolução que ia mudar toda a sua vida. Ela não sabia mas a sua família não era muito diferente da maioria das famílias portuguesas pois, nessa altura, o País via-se sangrado da sua juventude. Uns partiam para as colónias e nunca se sabia se voltavam ou ficavam por lá vítimas de uma mina ou de alguma bala emboscada. Outros fugiam para não partirem para uma guerra que não queriam nem entendiam.
Foi com surpresa e medo que Rosa ouviu da boca da patroa, a notícia da Revolução. Medo porque a "doutora"- era assim que ela gostava de ser tratada, embora o médico fosse o marido - lhe deu a entender que a revolução era muito má para o País e para eles, patrões, que talvez não pudessem continuar a dar-lhe trabalho. Rosa ficou muito preocupada. Se ficasse sem trabalho, como ia pôr comida na mesa? Mas quando chegou a casa, o filho explicou-lhe o que significava a revolução de uma maneira diferente. Falou-lhe do fim da guerra colonial, da abertura das prisões, do fim da PIDE e do sonho dum País mais igualitário.
No dia seguinte à tarde, quando Rosa chegou a casa, teve uma grande surpresa ao encontrar o seu João. Muito magro, o cabelo todo branco e o ar macilento, em nada se parecia com o homem com quem casara. Apenas o brilho no olhar, lhe lembrava o João de antigamente. Apesar da alegria do reencontro, Rosa estava preocupada com a saúde do marido, que recuperava aos poucos as mazelas físicas, mas as psicológicas continuavam a persegui-lo.
Dias depois, Rosa e João comemoravam pela primeira vez na sua vida o 1º de Maio. E dois meses depois, podiam abraçar o filho António, que regressara da França, ao saber que o novo governo estava a negociar a independência das colónias e que, por isso, não teria que ir para a guerra.
Para Rosa tudo era novo e diferente, ela não entendia muito bem o que se passava no País mas o que ela notava é que o povo estava mais alegre, mais feliz
Por outro lado, João recuperara o emprego, o filho conseguira trabalho na Siderurgia Nacional, a filha mais nova fora trabalhar para a Timex, até o filho doente, estava melhor agora, graças a uma bomba que o médico já tinha receitado à muito, mas que ela nunca conseguira comprar. A sua vida estava muito melhor, ela podia enfim descansar um pouco, deixando o trabalho a dias e ficando em casa a cuidar do marido e dos filhos solteiros. Podia também cuidar dos netos, deixando as filhas mais descansadas e mais libertas de despesas. Porém, sobre ela pairava, como uma sombra, o medo pelo filho ainda lá longe. Principalmente porque não havendo a P.I.D.E, nem censura, tudo o que se passava em África chegava a Portugal. Rosa sabia que o governo, estava a negociar a independência, mas todos os dias chegavam a Portugal “os retornados” que falavam do medo que sentiam, da guerrilha entre os movimentos de independência, e os residentes pró colonialistas, que grassavam por todas as colonias, do recolher obrigatório, da incapacidade dos militares impedirem os indígenas que os saqueavam. E o seu filho continuava lá em Angola. Por outro lado, os políticos pareciam não se entender, os governos provisórios sucediam-se, e Rosa tinha muito medo que tudo voltasse ao mesmo, ou como diziam alguns, que a seguir à ditadura fascista, se seguiria uma ditadura comunista. O marido dizia-lhe que isso sim seria um sonho, mas Rosa que era uma mulher sem instrução, e tudo o que aprendera na vida, ficara-lhe  gravado na memória pelo sofrimento, achava que ditadura nunca seria coisa boa, fosse ela fascista ou comunista. E lembrava-se do que a avó sempre dizia quando ela era pequena e nem bem sabia o sentido das palavras. “Atrás de mim virá, quem bom me fará” Tinha medo. Muito medo de ainda vir a achar que os anos para trás, é que tinham sido bons. Naquele verão, mais de um ano após a revolução, o país parecia caminhar para uma guerra civil, e Rosa tinha muito medo do futuro. Medo que só perdeu, quando em Novembro de 75, pôde enfim abraçar o filho que regressara são e salvo, após a Independência de Angola. E quase no final desse mesmo mês, a viragem histórica do país, que afastou o espectro da guerra civil.
Agora sim, Rosa era uma mulher feliz. 
Maria Elvira Carvalho

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Não deixem de visitar o site da autora clicando AQUI, onde, eu tenho certeza, irão se deslumbrar...
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Espero que tenham gostado da divulgação. Um abraço a todos e até a próxima!
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12 comentários:

Cesar S. Farias disse...

Como sempre, a narrativa da Elvira é cativante, prende-nos a atenção e ao mesmo tempo nutre-nos com fatos históricos. Não poderia deixar de prestigiá-la nesse espaço de trocas e novidades literárias.
Grande abraço e Feliz Natal ao amigo.

Laura Santos disse...

Não há dúvida que Elvira tem imenso talento narrativo.
xx

Elyane Lacerdda disse...

Elvira, você escreve muito bem e sabe nos prender ao seu texto!
Bjus e FELIZ NATAL,amiga!
http://www.elianedelacerda.com

Majo disse...

~ Uma narrativa bem estruturada e realista que retrata uma época muito dura para os trabalhadores. ~

~Paz~Saúde~Amor~Fraternidade~Luz~

~ ~ ~ Dias felizes. ~ ~ ~

Elvira Carvalho disse...

Vim agradecer amigo Viviani este belo trabalho de divulgação do meu conto. E se me dá licença aproveito o seu espaço para agradecer a todos os que leram e comentaram o conto.
Um Bem Haja para todos vós.
E um Natal com muita saúde e alegria.

Marina Fligueira disse...

¡Hola J-R!!!

Vaya relato precioso y completo, hay que ver cuantas calamidades pasó la pobre Rosa. Pero al final fue feliz. Eso es lo que importa.

Pero hoy quiero dejarte mi cálido y fuerte abrazo, mi gratitud y mi estima siempre.
Felices fiestas desde mi corazón. Que el nuevo año te colme de salud, amor, paz e inmensa felicidad para ti y los tuyos.

Besos azules en vuelo.

Marina Fligueira disse...

Me olvidaba, Felicidades a Elvira.

Giancarlo disse...

A Natale tutti ritorniamo bambini! Allora ti auguro che la gioia, la pace e l'allegria, possano accompagnarti per tutti i giorni dell'anno. Buon Natale.

Labirinto de Emoções disse...

OLá Viviani

Volto.. para desejar Um Feliz Natal com muita saude, paz e amor e que 2015 todos os sonhos sejam realizados.
Um beijinho
Teresa

Isa Lisboa disse...

Venho desejar a Viviani e a todos os autores homenegiados um Feliz Natal e um excelente 2015, com tudo de bom, quer a nível literário, como em todos os aspectos da vida!

Uma abraço!

Evanir disse...

Amigo Viviane.
Parabéns pela belíssima divulgação
obrigada por seu carinho e amizade.
Um Santo Natal.
Um ano novo na paz de Jesus.
Evanir.

Leila Bomfim disse...

A riqueza de detalhes, faz a gente entrar na história....parabéns a autora.