19 de dezembro de 2012

Contos e Prosas - apresenta a criação de:


Sobrevivência e amor ao sertão.
Meu nome é João. Nasci no outono de 1978, num sítio chamado Rancho Fundo, no sertão Pernambucano.
Desde muito cedo aprendi a semear a terra para a plantação, juntamente com meus pais e meus dois irmãos.
Nasci mesmo no solo firme, sob um horizonte tão claro que fascina e ao mesmo tempo ofusca o olhar.
Aos doze anos tive que suportar a dor de ver meu pai partir, vítima de um trágico acidente.  Eu recordo muito bem a força que recebi da minha amada mãe Marina e dos meus irmãos mais velhos. Chegamos a passar fome, mas a fé nos fez seguir em frente com muita garra e vontade de vencer.
Começamos a trabalhar com o barro, produzindo belas peças artesanais. Saíamos para vendê-las a qualquer hora do dia, até mesmo sob o sol escaldante. Aos poucos, aprendemos a lidar com a dor. Agora restava apenas a saudade da família toda reunida à mesa. Andando de carroça em busca da vazante, pescando no açude, à noite contando estrelas nos momentos de felicidade plena.
Anos depois meus irmãos foram morar lá pras bandas do Sudeste. Neste tempo conheci uma linda morena que roubou meu coração. No ano passado minha mãe foi encontrar com meu pai no céu e a dor mais uma vez fez morada em mim.
Mesmo depois de tudo, continuo morando na mesma casinha da infância, que fica num canto alto, com uma longa escada de pedra. Às vezes fecho os olhos e vejo minha mãezinha subindo os degraus devagar, meu pai cuidando da horta ao lado, enquanto isso, meus irmãos regam as flores na janelinha azul.
Apesar dos meus irmãos quererem levar eu e minha esposa para morarmos com eles, não abandono o meu sertão, o pedacinho de chão que plantei a minha vida e vi nascerem meus sonhos. Jamais me acostumaria com a correria da cidade grande, pois, o barulho que gosto de ouvir é a cantoria dos pássaros fazendo festa ao amanhecer.
Minha vida é essa aqui: acordar de madrugada, ligar o rádio que continua na mesma banquinha de madeira e ouvir músicas antigas que me fazem entrar num túnel de lembranças. Posso caminhar de mãos dadas com meus pais e meus irmãos descendo e subindo a serra, colhendo os frutos do plantio... E então mergulho na certeza de que este é o meu lugar, o qual nunca irei deixa-lo.


Luzia Medeiros
Direitos Autorais Reservados ® 
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22 comentários:

Carmen Lúcia.Prazer de Escrever disse...

Lindo conto Luzia!Como é bom continuarmos com as mesmas raízes,lugar onde nascemos e crescemos.Ter mamãe e papai à observar as plantas e colher os frutos do plantio.Isso é realmente um paraíso!Irei conhecer seu espaço que deve ser encantador.

Bjs.
Carmen Lúcia

Dorli disse...

Oi Luzia
Ninguém esquece suas raízes, mesmo que elas lhe tragam sofrimentos, pois foi ali que se vê pela primeira vez o sol escaldante a machucar o chão rachado do sertão.
João não é diferente de qualquer outro sonhador sertanejo que espera com ansiedade, todos os dias, que a chuva caia no sertão, que os governantes se apiedem dele; povo bravo bravo, mas muito trabalhador. É, mas nada acontece.
Ele não quis sair das suas raízes, porque foi aí que de certa forma sua vida e, é feliz.
Luzia: Não conheço o sertão, mas aprendemos na escola o sofrimento dos sertanejos e muitas das minhas poesias dediquei a eles.
Bem lembrado e lindo seu conto que é um grito de amor: Sobrevivência e amor no sertão.
Bravo menina, você escreve com uma fluência invejável.
Parabéns, você vai longe...
Beijos
Lua Singular

Luzia Medeiros disse...

Fiquei feliz com o que li nestes dois comentários. Obrigada pelo carinho!

POR TODA MINHA VIDA disse...

Luzia Minha linda Magnífico conto muito bem representado ...verdades que só o verdadeiro nordestino como nós conhecemos ...fico a pensar na beleza da sua criação e te encontro com este lindo coração de sempre um grande beijo Pedro Pugliese

Dídimo Gusmão disse...

Luzia,
Seu texto é maravilhoso. Gostei da forma como retratou a vida na roça com seus pais e irmãos.
Também, plantei arroz, feijão,colhi grãos de café, milho e muitas outras coisas.
Tenho saudades daqueles tempos de fartura e produtos saudáveis.
Abraços literários.
http://didimogusmao.blogspot.com.br/

*Escritora de Artes* disse...

Um conto emocionante, cheio de saudade e amor...

Abçs

Lao disse...

gracias por todos tus interesantes aportes amigo "vendedor de ilusiones"
QUE EN ESTA NAVIDAD TU CORAZÓN SE INUNDE DE PAZ Y TAMBIÉN DE QUIENES TE RODEAN...

MARIA MACHADO disse...

Parabéns Luzia! Magnifíca história seu conto me deu saudades de minha infância de meus dez irmãos, meu pai que já se foi, agente ia todos os dias para a roça, e éramos tão felizes, o pouco bastava para a felicidade, hoje minha mãezinha continua lá, deixei meu coração lá junto dela também. Luzia você escreve divinamente bem, gostei muito, me emocionei com seu conto.
Parabéns! Um bj no coração...Deus te abençoe...Maria Machado

Lu Nogfer disse...

E que Joao seja feliz no cantinho de suas raizes.
Para muitos a felicidade é simples como o cheiro de mato e o cantar do sabiás!

Parabens a autora pelo belo conto!

Abraços!

Pedro Luis López Pérez (PL.LP) disse...

Un cuento lleno de Ternura. Es una lectura entrañable y lleno de sentimiento.
Um abraço.

Maria Alice Cerqueira disse...


Prezado amigo
Vim agradecer sua presença amiga lá no meu recanto.
Eu vim também lhe oferecer dois selinhos, um de 700 seguidores e o outro com os votos de Feliz Natal.
http://www.mariaalicecerqueira.com/
Abraço fraterno.
Maria Alice


Luzia Medeiros disse...

Querido J.R. Obrigada por ter publicado meu conto mesmo sem eu ter conseguido enviar.

Um abraço.

Nádia Santos disse...

Parabéns Luzia por relatar de forma tão doce e meiga a vida o sertanejo. Lindo! Bjus

MARIA DA FONTE disse...

Muito interessante o seu texto. Gostei muito. beijos

Marli Franco disse...

Luzia um texto lindo tua escrita mostra com criatividade a vida do sertanejo.Especial e admirável tua escrita!um bjs de violetas

Bento Sales disse...

Olá, amiga Luzia!
Seu magnífico conto me tocou profundamente, pois, também sou sertanejo e vivi quase todo sofrimento relatado pelo narrador intradiegético, com a diferença de ter perdido meus pais por motivo de abandono.
Creio que João vive num paraíso, comparando com a atribulada vida urbana.
Tu tens ótima narrativa, linguagem e gramática.
Parabéns pelo talento!
Teu texto deu uma contribuição especial a este evento singular do amigo Viviani.

Abraço a ambos.


Rosa Mattos disse...

Muito bonito seu conto, Luzia.

Parabéns!

Janete Sales (Dany) disse...

OLá Luzia, belo conto!
Meus parabéns descreveu com perfeição o amor de alguém que não abandona o que mais ama...
O amor ao sertão!

Lindos contos o nosso amigo JR Viviani está nos proporcionando e parabéns a ele também, pelo respeito ao autor...
Muito sublime o modo na qual apresenta cada um!

Um abraço a todos!

elvira carvalho disse...

Muito bonito o seu conto.Fiquei encantada com a forma como o personagem descreve o seu arreigado amor pela terra onde nasceu e pela familia a que pertenceu.
Um abraço e tudo de bom para si.

Isa Lisboa disse...

A nossa casa só pode ser onde somos felizes!

Deixo também os meus desejos de Boas Festas a Viviani e a todos os leitores dos Contos e Prosas!

Abraço

Graça Pereira disse...

Hoje passo para te desejar um Feliz Natal e um 2013 em GRANDE!
Beijo
Graça

Bia Hain disse...

Luzia, que doce de conto! Sabe que eu até fiquei com vontade de estar no lugar do personagem, que escolheu a simplicidade do sertão à maratona material que as grandes cidades impõe a quem chega! Lindo, um abraço!